Muito comum na busca pela psicoterapia de casais é quando existe o evento da infidelidade. Atendendo casais há muitos anos, percebo que essa experiência traz enormes marcas de sofrimento, angústias e incertezas. 

A descoberta da infidelidade altera a vida do casal, e a psicoterapia contribui para que ela não necessariamente seja o final de uma relação de compromisso ou casamento, mas que possa ser uma oportunidade de os envolvidos repensarem juntos a relação, ampliando o conhecimento de cada sujeito individualmente e dele nessa relação. 

Todos temos necessidades psicológicas básicas e muitas delas são atendidas por meio de uma relação de compromisso, como ocorre no casamento. Esse tipo de relação confere aos casais algumas experiências que raramente serão encontradas em outras relações, como convivência, sentido de vida, construção de família, afinidades, intimidade psicológica e sexual, segurança, validação de valores e fé, estabilidade e construção de patrimônio.

A descoberta da infidelidade costuma representar uma ameaça à manutenção dessas qualidades da convivência, o que é percebido em psicoterapia por meio de intensos sentimentos. O parceiro traído costuma vivenciar a experiência como abusiva, desleal, imoral, cruel ou egoísta. Já o parceiro que traiu costuma expressar culpa, desejo de punição, vergonha, submissão, medo ou raiva. 

É necessário que ambos se escutem para que possam validar o que a experiência causou no pacto de fidelidade até então existente. Contudo, para além disto, está um processo subjetivo e profundo de autoconhecimento que o evento, mesmo sendo tão doloroso, pode trazer para ambos.

O papel da psicoterapia de casal é o de contribuir de forma decisiva para um desfecho saudável, a partir de aspectos como os abaixo descritos.

– Entender as motivações da infidelidade e como cada um se percebe diante disso. 

– Reconhecer que nem sempre o motivador para a infidelidade está em algo que falte na relação de compromisso – tenho observado que algumas tramas internas (nem sempre reconhecidas) desencadeiam ameaças às necessidades psicológicas de cada indivíduo do casal. 

– Estabelecer um novo pacto de compromisso e relacionamento, identificando as tramas internas que havia até então, reconhecendo ativadores internos para essa nova forma de estar em casal. 

– Tornar claro quando o amor e a parceria se distanciaram do sexo e da atração. 

– Identificar que estados emocionais individuais como agressividade ou depressão podem produzir desconexão e indiferença. 

– Validar a importância que o outro tem e atentar aos sentimentos que podem produzir insegurança. 

– Reconhecer que a educação moral recebida pode impedir a expressão de sentimentos e desejos. 

– Aprender novos modos de enfrentar desejos e oportunidades de infidelidade, visando a recusa a eles. 

– Identificar a capacidade de confiança no outro.

Caso o novo pacto não seja possível, o desafio será encontrar um desfecho de relação de modo que a comunicação possa ser empática e conciliatória. Apesar da dor que a finalização de um enlace traz, é importante que seja validada aos cônjuges a experiência de amor e cumplicidade que em algum momento os uniu.

 

Laura Oppermann Elter

Psicóloga

CRP: 07/07107