Para falar sobre saúde mental pode-se escolher mais de um viés, mais de um ponto de vista. Talvez esta seja uma premissa básica para caracterizar a saúde de algo tão complexo quanto a mente humana: sua singularidade.

Afinal, como disse Caetano Veloso, parafraseado no título deste texto, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. E saúde mental tem disso, um delicado balanço entre a dor e a delícia de viver.

E é importante dizer que não se trata aqui de romancear o sofrimento, mas de lembrar que sim, a vida também é feita de momentos ruins, de dores por vezes percebidas como insuperáveis, de frustrações. E de novas tentativas de reerguer-se.

Não há como passar por esta vida sem um “quê” de sofrimento, sem ser contrariado, sem sentir a falta de algo ou alguém. Já dizia Lacan que a falta constitui o sujeito desejante: “é a falta que move o sujeito em direção à realização do seu desejo”. Mas claro, dadas as devidas proporções.

Por falar nisso, proporções também é palavra-chave ao falar-se em saúde mental, uma vez que o que dói em mim, pode não doer no outro. Ou seja, cada um deve saber o seu próprio limiar daquilo que consegue ou não suportar.

Pode parecer dissonante abordar a saúde mental através da dor e do sofrimento, mas considero importante trazer este assunto à tona. Isso porque num mundo onde demanda-se que estejamos sempre belos, saudáveis, produtivos e felizes, o sofrimento parece não ter lugar; e surge um estranhamento, uma incompreensão da própria dor em momentos em que seria saudável que ela se manifestasse (como na perda de um ente querido, por exemplo).

Não é incomum falarmos às pessoas que a dor que elas sentem nem sempre é sinal de adoecimento. Como diz Wander Wildner, “eu não consigo ser alegre o tempo inteiro”. E não há problema nenhum nisso.

Saúde não é apenas mera ausência de doença (OPAS/OMS), e saúde mental vai muito além de ter ou não algum transtorno de ordem psíquica. Saúde mental tem a ver com respeitar a si mesmo e os limites do sofrimento que você pode ou não suportar. Mas, se a dor de viver tornar-se insuportável, peça ajuda. Pedir ajuda não é sinal de fraqueza; mas sim, também é sinônimo de saúde mental.

 

Ane Lis Schardong

Psicóloga – CRP 07/26991